CEARÁ DOA CÓRNEAS PARA 17 ESTADOS BRASILEIROS

A condição das famílias que vão à sede da Perícia Forense do Estado do Ceará (Pefoce), em Fortaleza, em geral, é de tristeza. A ida ao local pressupõe, na maior parte dos casos, a identificação do corpo de um parente vítima de morte violenta. Porém, nos últimos anos, tem sido um pouco amenizada com a possibilidade de ajudar outras vidas que carecem de transplantes. Desde 2016, a Pefoce conta com o serviço de captação córneas para doação, sendo o principal alimentador do Banco de Olhos do Estado. Entre 2016 e 2018, o Ceará enviou córneas para outros 17 estados brasileiros.


Entre janeiro e agosto de 2018, pacientes de 12 estados já receberam córneas captadas no Ceará. São eles: Alagoas, Acre, Bahia, Minas Gerais, Mato Grosso, Rio de Janeiro, Rondônia, Sergipe, Pará, Piauí e Tocantins.

Um das doações de tecidos do tipo foi autorizada pela auxiliar de serviços gerais Irene Maria Carvalho, mãe de um adolescente vítima de acidentes de trânsito em abril desse ano. "Eu não pensava nisso (doação), mas quando eles conversaram comigo eu tomei a decisão. Eu fui muito bem recebida. Eles conversaram e eu decidi doar. Me fez bem. É um pedacinho dele circulando por aí", conta ela.

Captação

Segundo as informações da coordenadora do Banco de Olhos do Ceará, Lisiane Paiva, ao chegarem à Pefoce, as famílias são atendidas e a questão legal da identificação da vítima é encaminhada. Após cumprida a etapa burocrática, é feita uma busca ativa por possíveis doadores. Conforme Lisiane, as exigências são: o doador tem que ter entre 2 e 65 anos, a causa da morte tem que ser conhecida e a morte deve ter acontecido há menos de 12 horas.

Entre 2016 e 2018, o Banco de Olhos do Ceará captou 2.503 córneas, informa Lisiane. Destas, 2.316 foram apenas do banco de olhos da Pefoce. O local, explica ela, recebe, em média, 400 corpos vítimas de mortes violentas por mês. Destes, 30% enquadram-se no perfil exigido. Do total, 70% das famílias entrevistadas aceitam doar. "Nosso maior parceiro é a sociedade cearense e o segundo maior é a Perícia Forense", ressalta a coordenadora. A legislação brasileira veda a remoção de tecidos, órgãos ou partes do corpo de pessoas não identificadas.

Avanços

Outro êxito que a coordenadora atribui ao banco de olhos da Pefoce é a fila zero para transplantes de córnea no Estado. Em dezembro de 2016, segundo a Secretaria Estadual da Saúde (Sesa), o Ceará zerou essa fila de espera por transplantes. Para a Associação Brasileira de Transplantes de Órgãos (ABTO), a fila zero indica uma situação em que o paciente que precisar de uma intervenção cirúrgica não necessita esperar pelo tecido porque ele já está disponível para cirurgia.

"Diante disso o Ceará exporta córnea para o Brasil. O País hoje voltou a enxergar com olhos de cearenses. E o maior receptor é o Rio de Janeiro", destaca Lisiane. Neste ano, os estados do Rio de Janeiro, Minas Gerais, Pará, Mato Grosso e Maranhão foram os que mais receberam córneas captadas no Ceará.

A coordenadora explica ainda que a córnea não é um órgão e "não passa sangue por ela". Por isso, informa, há possibilidade de a pessoa que faleceu em via pública ou em um hospital que não é habilitado para fazer a retirada, ao ser encaminhado para a Pefoce terem os tecidos captados para doação. "A Perícia Forense tem estrutura. Com câmara fria que mantem o corpo da pessoa em um estado de conservação exigido para que isso aconteça, obedecendo todos os parâmetros. Uma córnea no corpo humano em condição adequada de refrigeração pode ser retirada até 12 horas depois da parada do coração", explica.

Após a captação, o tecido vai para o banco de olhos, onde é preservado e, em seguida, disponibilizado para transplante. O transporte das córneas para outras cidades e estados fica a cargo da Central de Transplantes do Estado.

O Perito Geral da Pefoce, Ricardo Macêdo, explica que há planos de expansão dos bancos de olhos para os núcleos da Pefoce em Sobral, Russas, Iguatu, Quixeramobim e Canindé. Hoje, Juazeiro do Norte, segundo ele, que desde fevereiro deste ano conta com o banco de olhos, já captou 26 córneas.

Campanha

Neste mês, o Movimento Doe de Coração, da Fundação Edson Queiroz, completou 16 anos. A iniciativa, que visa alcançar o maior número de pessoas a fim de conscientizar sobre a importância da doação de órgãos, é desenvolvida por parcerias firmadas com hospitais públicos e particulares. O Movimento Doe de Coração envolve, sobretudo, veiculação de anúncios em jornais, portais de notícias, rádios e televisões, além da distribuição de folders, cartazes e camisas para funcionários das empresas do Grupo Edson Queiroz.

DIÁRIO DO NORDESTE

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