"PIRATAS DO TRÁFICO" FAZEM ARRASTÕES, FOGEM PELO MAR E ESPALHAM MEDO NA BAHIA

No romance do escritor Jorge Amado, eles eram tachados como heróis no estilo Robin Hood – um fora da lei mítico inglês que roubava da nobreza para dar aos pobres. Mas os Capitães da Areia que atualmente cruzam o mar entre as praias de Plataforma e Ribeira, em Salvador, estão mais para piratas a serviço do tráfico. Eles atravessam de uma ponta a outra para assaltar e espalhar o terror em parte da orla da Cidade Baixa.


São adolescentes, entre 15 e 17 anos, que saem da praia de Plataforma em catraias (pequenas embarcações a remo, normalmente usadas por pescadores) para fazer arrastões na orla da Ribeira. Os ataques são de preferência à noite, quando deixam as localidades conhecidas como Ladeira do Mocotó e São Brás, ambas rentes à praia de Plataforma, trechos dominados pela facção Bonde do Maluco (BDM).

O caso mais recente - e não é o único - aconteceu no domingo, conforme denúncia da coluna Satélite, do Correio. Duas cantoras conhecidas de Salvador foram vítimas de um arrastão no domingo, na praia da Ribeira, quando foram abordadas por um assaltante. Após levar os pertences das artistas, o ladrão roubou outras pessoas que caminhavam no local. Para surpresa de todos, o bandido fugiu em um barco que o esperava na baía.


O Correio esteve no local na manhã dessa terça-feira (26), e comerciantes e moradores confirmaram a ação dos criminosos no domingo. No entanto, as polícias Civil e Militar informaram que não houve registros do fato. A Marinha do Brasil informou também desconhecer o assalto.

Na roda formada só por homens em frente à Igreja da Penha, na Ribeira, a conversa estava longe de ser mais uma história de pescador. A ação dos “piratas” era o assunto da manhã. “Eram três. Chegaram numa catraia e roubaram todos que estavam na areia”, comentou um dos comerciantes e morador do local. 

De acordo como o grupo, o assalto aconteceu no início da noite, no trecho da faixa de areia da praia que fica em frente à igreja – olhando o horizonte, é possível traçar uma reta imaginária até a praia de Plataforma. “Aqui fica lindo à noite, bem iluminado e as pessoas têm o hábito de caminhar e tirar fotos, principalmente dos casais”, disse outro morador. 

No domingo, três rapazes desceram da embarcação, mas apenas dois deles seguiram e abordaram as pessoas – o terceiro ficou tomando conta do barco. “Eu não sei se as mulheres são artistas. Só sei que eles fizeram um arrastão com todo mundo que estava na praia. Pelo menos um deles estava com um revólver. Depois que fizeram a limpa, caíram fora na catraia”, relatou o morador. 


“Eles foram de atitude. Vieram e voltaram a remo. Se a polícia tivesse passado na hora, dava para pegar eles. Poderiam ter pego um barco e pegá-los ainda no início da travessia”, comentou um outro morador. “Hoje, quando vejo uma catraia se aproximando da areia à noite, já fico ligado”, emendou mais um comerciante. 

Tiros

O arrastão de domingo não foi um caso atípico, pelo contrário, tem acontecido há pelo menos seis meses. “Desde quando retiraram as barracas de praia que os ladrões começaram a vir de Plataforma para cá. Quando os barraqueiros estavam aqui, se um desses rapazes chegasse para roubar, era cercado e surrado por todo mundo. Agora, junta a retirada das barracas com a falta de policiamento, a bandidagem começou a fazer a festa. A situação estava tão crítica, que um policial civil que mora por aqui botou uns três pra correr a tiros. Os ladrões fugiram a nado”, contou um comerciante do local.

“Não sei por que eles voltaram a agir no domingo. Se nada for feito logo, vai voltar como era antes. Os poucos turistas que vêm aqui ficam deslumbrados com a beleza da praia à noite, mas a gente informa os riscos. No entanto, alguns ignoram e aí já sabe né?”, complementou o comerciante. 

Moradora há mais de 20 anos da Ribeira, uma idosa disse que há pouco mais de um e ano e meio, bandidos em um barco pequeno se aproximaram de uma embarcação atracada no cais e roubaram os tripulantes. “Como as pessoas ficaram em pânico, um deles atirou para cima e teve gente que desmaiou. Da minha casa deu para ouvir o tiro”, relatou a idosa.

“A ação deles (ladrões) é sempre nos finais de semana, e à noite, o que nos deixa apavorados”, contou uma moradora. “A insegurança aqui é grande. Nos finais de semana, quando a gente mais precisa, a polícia não está nem aí e os bandidos sabem disso porque eles também circulam por aqui em outros dias”, relatou outra moradora. 

“Alguns desses meninos não têm mais de 17 anos. O que a gente fica impressionada é agressividade deles. Chegam gritando, ameaçando, causando o terror. Estão sempre armados”, diz a moradora.

Sem ocorrência

Na 3ª Delegacia (Dendezeiros) não há registro de roubos envolvendo ladrões que vêm do mar. No entanto, o delegado titular da unidade, Vítor Spínola, disse que, no segundo semestre do ano passado, houve uma ocorrência relacionada à fuga de bandidos com uso de um barco na Ribeira.

“Eles assaltaram e fugiram pelo mar em um barco, mas não soube se eles haviam chegado numa embarcação”, declarou o delegado.

Um policial do Serviço de Investigação (SI) da delegacia informou que a modalidade não é de agora, mas que há algum tempo não tem registro do tipo na unidade. Mas ele disse que os assaltos do gênero são praticados por jovens envolvidos com o tráfico de drogas de Plataforma, região atualmente dominada pela facção Bonde do Maluco (BDM).

Ao Correio, a Polícia Militar informou, por meio de nota, que não foi acionada para a ocorrência de domingo. Perguntada quanto ao registro de casos de ladrões que chegam e fogem de barcos, a PM informou que o levantamento de dados e ocorrências é de competência da Polícia Civil.

Em relação a como é feito o policiamento náutico na orla da Cidade Baixa, a PM respondeu que “a soberania do mar brasileiro é de responsabilidade da Marinha do Brasil”. Durante o lançamento da Operação Verão 2017/2018, o comandante-geral da PM, coronel Anselmo Brandão, anunciou que lanchas da PM iriam combater “piratas” nas ilhas de Itaparica, Maré e Frades.

Já a Marinha informou que “a prevenção e repressão a delitos contra a ordem pública e incolumidade das pessoas e do patrimônio, a exemplo do caso de domingo, não estão entre as suas atribuições. Assim, não mantém registro de ‘casos de ladrões’ que trafegam pela Baía de Todos os Santos, ou que utilizam barcos para assaltar outras embarcações”.

Sobre o patrulhamento, o órgão disse que a Capitania dos Portos realiza, diariamente, verificação de itens e equipamentos de segurança, regularidade da documentação da embarcação, entre outros.

O POVO

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