'LEIS DAS FACÇÕES' CAUSAM MORTE E ASSUSTAM ATÉ OFICIAL DE JUSTIÇA


O motorista da Uber Guilherme e Silva Maia, de 22 anos de idade, perdeu a vida porque não baixou as janelas do automóvel, no último domingo (23). Ele não foi a primeira pessoa que desrespeitou as "leis" impostas pelas facções criminosas, nas periferias cearenses, e acabou sendo assassinada, neste ano. A intolerância da violência impede que muitos cidadãos passem por algumas localidades ou mesmo realizem o seu trabalho. Assustada, uma oficial de Justiça se recusou a entregar mandados judiciais, em Fortaleza, no último dia 20 de julho.


Guilherme foi ao bairro Ancuri e adentrou à comunidade da Alameda das Palmeiras, sem conhecê-la, após receber um chamado de um cliente do aplicativo Uber, por volta de 21h30. O rapaz parou o veículo Fiat Siena e aguardou, pacientemente. Houve tempo de um adolescente avistar o automóvel desconhecido, que estava com o motor ligado, faróis apagados, janelas fechadas e vidro com fumê escuro, e ir avisar a comparsas.


Outros dois adolescentes, um de 15 anos de idade e outro de apenas 13, foram os responsáveis diretos pelo homicídio. O suspeito mais novo teria arremessado uma pedra no veículo em que a vítima se encontrava, enquanto o mais velho disparou um tiro fatal com uma espingarda calibre 12 (que tem uma bala capaz de se ramificar e causar perfurações múltiplas no alvo).

Os suspeitos foram apreendidos, em uma operação conjunta da Divisão de Homicídio e Proteção à Pessoa (DHPP), com o 6º DP (Messejana) e a Polícia Militar, na última quarta-feira (26), e conduzidos à Delegacia da Criança e do Adolescente (DCA), para serem autuados por um ato infracional análogo ao crime de homicídio. O adolescente de 15 anos já tinha antecedentes criminais por roubo, tráfico de drogas e crime contra a administração pública. A Polícia ainda procura pelo jovem que informou sobre o veículo da vítima e pelo homem que seria o proprietário da arma de fogo utilizada no crime, que já foi identificado.

"A motivação da morte é que, quando eles veem um carro que anda com o vidro fechado ou um motoqueiro que não tira o capacete, eles suspeitam que sejam membros de outra facção. Ninguém nega que exista isto", assumiu o titular da Secretaria da Segurança Pública e Defesa Social (SSPDS), André Costa. "Tiveram a ideia que seria alguém de um grupo rival e decidiram se antecipar, agindo de forma covarde, vitimando um cidadão jovem, que estava ali trabalhando e ganhando o dinheiro dele", acrescentou o diretor da DHPP, delegado Leonardo Barreto.

Medo

Uma oficial de Justiça do Ceará tem medo de ter o mesmo fim de Guilherme. Tendo que entregar mandados nos bairros Tancredo Neves e Conjunto Tasso Jereissati, na Capital, a profissional emitiu uma certidão lamentando a impossibilidade de realizar o trabalho, devido ao "fim da 'paz' entre facções criminosas", que "reavivou o terror na área", conforme ela justificou.

"O que me inquieta é esta situação excepcional de imprevisibilidade, na qual, em qualquer horário em que estiver cumprindo ordens judiciais, é passível de acontecer algum episódio que atente contra a minha vida", reforçou a oficial de Justiça.

Em um cumprimento de um mandado judicial no bairro José Walter, um filho de um oficial de Justiça, que o aguardava dentro de um veículo, foi baleado no braço e teve que ser socorrido, no dia 29 de maio deste ano. Como não houve assalto, o pai do rapaz acredita que a agressão se deu por briga entre facções criminosas locais.

Guerra

Uma fonte da SSPDS, que preferiu não se identificar, contou que a guerra entre as facções criminosas Comando Vermelho (CV) e Guardiões do Estado (GDE), pelo domínio do tráfico de drogas, se espalhou por todo o Estado, sendo o principal responsável pela explosão de homicídios e, consequentemente, pelo pavor que se instalou na população.

O conflito se intensifica na periferia, onde o cidadão precisa ficar atento às "regras" impostas pelos criminosos, geralmente anunciadas em pichações, segundo a fonte. "Todas as comunidades estão divididas entre GDE e CV. É aconselhável, a qualquer cidadão que não é da comunidade, que não entre, se tiver pichações. Você tem que respeitar. O grupo (criminoso) fica sempre em alerta, esperando pelos rivais", afirmou.

Apesar do avanço das organizações criminosas e das "leis" que elas impõem em algumas comunidades, o secretário André Costa ressaltou que a Polícia vai a qualquer lugar para combater esses grupos: "Eu, pessoalmente, já estive em locais em que se dizia que a Polícia não ia. Está na hora da gente desmistificar isso. A Polícia, no Estado do Ceará, não tem medo de criminoso. Quando a gente vai, eles se escondem. Agora, infelizmente, nós não conseguimos estar em todos locais, 24h por dia".

Responsável pela investigação do assassinato do motorista Guilherme Maia, o delegado Osmar Berto, da 3ª Delegacia da DHPP, relatou que existem pichações das facções criminosas, próximo do local do crime. "Em determinadas regiões, comunidades mais carentes, eles (criminosos) buscam criar, no imaginário coletivo da população, que aqueles locais são dominados por facções criminosas, o que a gente pode dizer que não existe", defendeu.

Outros casos

Como Guilherme, outras pessoas descumpriram as 'leis' e confrontaram o crime organizado e acabaram mortas, no Estado, neste ano. O empresário Francisco Nascimento Canuto, o 'Xico Canuto', proprietário do tradicional bar da Praia de Iracema, 'Bicho Papão', foi assassinado a tiros, no dia 3 de julho, porque discordava da venda de drogas próximo do seu estabelecimento. Dois suspeitos de cometer o crime já foram presos e a Polícia considera o caso solucionado.

Já o casal Francisca Jocélia Ferreira da Silva e José Edson Alves do Nascimento, proprietário de uma pizzaria, foi executado na Barra do Ceará, no dia 2 de maio, pelo mesmo motivo da morte de 'Xico Canuto'. Eles teriam denunciado um ponto de tráfico de drogas que se instalou perto do estabelecimento.

Assustada com as facções criminosas, oficial de Justiça emitiu uma certidão lamentando a impossibilidade de entregar alguns mandados judiciais na Capital


Opinião do especialista

"O mando dos que fazem o crime prevalece"

Luiz Fábio Paiva. Sociólogo e professor universitário

A cidade de Fortaleza passa por transformações importantes que, infelizmente, afetam a maneira como experimentamos e circulamos por ela. A ação de grupos organizados é inegável. Embora toda a Cidade seja afetada, as periferias sofrem de maneira ainda mais intensa os processos de controle estabelecidos por integrantes de grupos que exigem obediência aos seus códigos de conduta. Marcações são feitas e perímetros são traçados, impedindo que a circulação de pessoas ocorra livremente.

 Precisamos baixar os vidros e demonstrar obediência aos códigos estabelecidos de maneira arbitrária pelos que se impõem pela força. As instituições que, em tese, representam o Estado correm de um lado para o outro sem que suas ações surtam efeitos e o mando dos que fazem o crime acaba prevalecendo. Como no caso do motorista do Uber, a desobediência às regras estabelecidas significa a punição desmedida, arbitrária, injusta e cruel. Sua morte é uma mensagem para todas as pessoas que, em seu dia a dia, não podem ousar desobedecer, pois quem manda, objetivamente, em determinadas áreas da Cidade são pessoas que enfrentam a ordem estabelecida, encontrando nela os meios de impor sua própria ordem.

 Enquanto as forças de controle social atuam de maneira descoordenada e apagando incêndios, o crime organizado demonstra sua força estabelecendo suas próprias formas de lei e ordem, punindo quem ousa esboçar resistência. Enquanto o Governo do Estado do Ceará afirma que "o trabalho está sendo feito", as organizações criminosas seguem fazendo o seu.


DN

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